12 estratégias no projeto de edifícios adaptáveis - Adaptable Futures.


Adaptabilidade no mundo pós-pandemia



Imagem 1: Hospital de Campanha do Covid-19 no Estádio Pacaembu em São Paulo, 2020. Fonte: https://fotospublicas.com/hospital-de-campanha-pacaembu/. Crédito: @AllegraPacaembu com edições pelos autores.



A pandemia do novo coronavírus colocou em cheque a forma na qual observamos o mundo em que vivemos e também o modo em que moramos. Durante o período de quarentena, edifícios como estádios de futebol (Imagem 1), tornaram-se hospitais de campanha temporários para auxiliar no desafogamento do sistema de saúde em alguns países. Em Londres, por exemplo, o espaço do centro de exibições East London's (que normalmente é palco de shows, exposições e conferências) foi convertido no Nightingale Hospital London em apenas 9 dias (Imagem 2).



Imagem 2: Nightingale Hospital London para Covid-19 no Estádio Pacaembu em Londres, 2020. Fonte: https://fotospublicas.com/londres-reino-unido-nightingale-hospital-london-para-covid-19-os-militares-e-contratados-constroem-o-hospital-nightingale-no-excel-em-londres-para-pacientes-covid-19//. Crédito: Andrew Parson com edições pelos autores.


 Isso gerou uma pergunta fundamental: ‘Como podemos efetivamente adaptar nossa infraestrutura atual, especialmente edifícios de grande escala, para responder melhor às necessidades de cuidados de saúde em situações de risco extremo, seja uma pandemia, guerra ou mudança climática?’. Além disso, os espaços em nossas casas foram transformados para assumir múltiplas funções simultaneamente - as casas tornaram-se um local de residência, trabalho e lazer, entre várias outras necessidades específicas.

Em alguns edifícios, essas necessidades distintas foram acomodadas de forma mais fácil e coexistiram de forma equilibrada, enquanto em outros não. Você já pensou o porquê de alguns edifícios durar centenas de anos enquanto outros apenas algumas décadas? É pura sorte ou existem qualidades arquitetônicas inatas que podem ser incorporadas desde o início que permitem essa resistência? Que barreiras impedem que nossos prédios sejam adaptados? Por que mais de 70% dos edifícios demolidos são estruturalmente sólidos?

Essas questões são fundamentais quando refletimos sobre o fato de sermos seres sociais e dinâmicos, com necessidades que variam e evoluem ao longo do tempo, seja por fatores internos ou externos. Mudança e tempo são fatores-chave no conceito de adaptabilidade. Afinal, se os humanos são um dos seres mais adaptáveis da natureza, os edifícios que construímos também não deveriam ser?

Apesar de não ser recente, o tema da adaptabilidade é central hoje, já que conceitos como a sustentabilidade e a obsolescência estão sendo cada vez mais discutidos: a construção de edifícios adaptáveis reduziria consideravelmente a quantidade de novas construções no futuro! Schmidt III e Austin (2016) definem a adaptabilidade como ‘a capacidade de um edifício em acomodar efetivamente as demandas em evolução de seu contexto, maximizando assim seu valor ao longo da vida’ (SCHMIDT III; AUSTIN, 2016, p.45).

Recentemente, o estudo da adaptabilidade ganhou destaque renovado nos estudos do Adaptable Futures Group (www.adaptablefutures.com), um grupo de pesquisa da Universidade de Loughborough, na Inglaterra. O grupo apresentou uma estrutura relativa à adaptabilidade que inclui 12 estratégias de projeto para a construção de edifícios adaptáveis (SCHMIDT III; AUSTIN, 2016). As estratégias estão divididas em quatro grupos (físico, espacial, caráter, contexto) que servem de base para o projeto e a adaptação de edifícios mais adaptáveis no futuro, principalmente para enfrentar as discussões sobre o mundo pós-pandemia. São elas:


ESTRATÉGIAS FÍSICAS

  1. Modularidade: separação das partes físicas do edifício em entidades físicas funcionais.
  2. Design ‘a’ tempo: capacidade das partes físicas do edifício proverem opções aos usuários (a tempo).
  3. Vida longa: capacidade das partes físicas durar um longo período.
  4. Simplicidade e legibilidade: nos componentes e na construção para permitir rápidas mudanças.


ESTRATÉGIAS ESPACIAIS

  1. Loose-fit: considerações espaciais além de um padrão mínimo ou aquele definido pelo briefing (ex: espaços abertos, etc).
  2. Planejamento espacial: relações entre os espaços, como eles estão dispostos, suas dimensões, etc.
  3. Técnicas passivas: materialidade, forma e orientação podem prover opções adicionais de conforto.
  4. Design inacabado: capacidade de adicionar ou completar alguma camada do edifício, o que gera controle do usuário.
  5. Maximização do uso do edifício: aumento do tempo no qual o edifício é usado durante o dia, mês ou ano.
  6. Aumento da interatividade: uso de conexões visuais e físicas.


ESTRATÉGIA DE CARÁTER

  1. Estética: uso da imagem, forma e narrativa do edifício como forma de cativar a apreciação da sociedade.


ESTRATÉGIA DE CONTEXTO

  1. Múltiplas escalas: capacidade do edifício em conseguir se adequar ao contexto.

Simplificando, projetar para o futuro é projetar para as mudanças (Imagem 3). O mundo continua mudando rapidamente e os humanos são parte desse processo contínuo. Adaptabilidade é uma experiência; uma expressão; uma aspiração. Utilizar a capacidade adaptativa dos edifícios é uma forma dinâmica de evitar a obsolescência e sua posterior demolição. Portanto, os edifícios precisam ser adaptáveis e devem facilmente permitir que eles acomodem as mudanças.



Imagem 3. Projetar para o futuro é projetar para as mudanças: como projetar edifícios que acomodem as necessidades distintas dos usuários? Fonte: esquema pelo Adaptable Futures Group.

 

REFERÊNCIA

SCHMIDT III, Robert; AUSTIN, Simon. Adaptable Architecture: Theory and Practice. Abingdon: Routledge, 2016. 296 p.

Para mais informações acesse: http://adaptablefutures.com/ ou @adaptablefutures

Sobre os autores:

Dr Robert Schmidt III, BArch, MSc, PhD

Senior Lecturer in Architecture
Programme Director (BArch) Architecture & LU-ARC Group Lead
t.+44 (0) 1509 222659 m. +44 (0) 7846111525
lu – arc
School of Architecture, Building and Civil Engineering
Loughborough University
Loughborough, LE11 3TU

José Evandro Henriques, BArch

Academic Visitor na Loughborough University
Pesquisador no Adaptable Futures Group
Pesquisador na Universidade Federal de Pernambuco
Arquiteto e Urbanista pela UFPE e Illinois Institute of Technology
eevandromoura@gmail.com ou @evandrohenriques


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